O lado obscuro de Erasmus

O lado obscuro de Erasmus

11 de Março, 2021 0 Por Diogo Teixeira

Data: 07 de Janeiro de 2021

Quem nunca ouviu falar bem de Erasmus e de todas as suas vantagens? Da descoberta, da aprendizagem, da independência, da aventura – isto é o que toda a gente passa da sua experiência internacional e não deixa de ser verdade. Contudo, tal como em tudo, existe um lado negro que não é falado de todo por ninguém. Esse lado negro esteve em cada vez mais evidência desde o início da pandemia.

Este desabafo não serve para denegrir o programa Erasmus, nem muito menos para desmotivar alguém que queira viver esta experiência. Serve apenas para relatar o lado obscuro – o que se passa por trás das cortinas e o que vai na nossa cabeça muitas vezes. Serve para falar sobre a adrenalina intensa que muitas vezes passa para a irracionalidade. Serve para alertar do perigo que infelizmente existe, principalmente nos dias de hoje.

Erasmus não é apenas tudo o que eu mencionei em cima. É também festas, álcool, drogas, sexo. É sair todas as noites e faltar às aulas na manhã seguinte. É sentir pressão dos teus colegas para não seres aquele que fica de fora ou que vai dormir mais cedo. É ter sexo desprotegido. São pilulas do dia seguinte ou até abortos. É também, muitas vezes, passar do racional para o irracional.

Eu sei que muitos consideram que isso faz parte da juventude ou da “idade louca” como muitas gostam de chamar.  E claro que isto não se aplica a todos os casos. Mas é mais comum do que o público em geral imagina.

Em tempos de pandemia vemos o pior acontecer. Os estudantes em erasmus são jovens e apenas têm esta experiência uma vez – logo não querem que esta seja boicotada. Casas minúsculas cheias de gente e de alcool sem os minimos cuidados. A dançar, a fumar, a beber. Festas clandestinas em estabelecimentos com centenas de pessoas a jogar beer pong. Mas até que ponto é que isso vale a pena?

Recentemente vimos Portugal atingir recordes nunca antes vistos. Os estudantes sabem dessa realidade. Eles têm acesso a esta informação através das associações de estudantes, das organizações internacionais e até dos próprios gabinete de relações internacionais. Não é uma questão de falta de informação. Se os avisamos eles respondem-nos com três pedras na mão ou ignoram, ou ainda são capazes de gozar. O que será que se passa na cabeça deles?

Por um lado, compreendo que queiram viver o erasmus como todas as gerações anteriores. Por outro lado, vale a pena o preço que isso tem? Vale a pena contribuir para a disseminação de um vírus mortífero e entupir os hospitais portugueses apenas pelo seu próprio divertimento?

Já me tentei colocar do lado deles. Admito que se eu estivesse na posição deles, provavelmente não seria a pessoa mais responsável. Mas nunca me iria juntar a festas clandestinas ou praticar alguma ilegalidade face a uma pandemia mortífera que leva centenas de pessoas por dia em Portugal. Claro que não consigo garantir o que faria ou nao faria, mas o meu divertimento não seria mais importante que a vida de outra pessoa.

Eles não têm qualquer receio de ir para a faculdade depois de uma noite com centenas de pessoas. Uma faculdade com milhares de estudantes portugueses, sendo que cada um deles tem a sua própria família que logicamente terá pessoas de risco. Ainda assim, eles fazem a sua vida normal. Tiram a máscara para falar contigo e fumar à tua frente se for preciso.

A sensibilização não tem funcionado. Ainda publicam nas histórias do instagram com imenso orgulho do que estão a fazer. Ainda fazem troça em praça público da malta que os tenta consciencializar. Merecem que os recebamos? Fica ao vosso critério.

Uma coisa é certa – erasmus não é apenas um mar de rosas. E a pandemia veio ampliar o seu lado negro e o quão longe pode levar a nossa inconsciência.