Istambul – A Essência de Dois Continentes

Istambul – A Essência de Dois Continentes

26 de Janeiro, 2020 5 Por Diogo Teixeira

Istambul é demasiado grande para apenas um continente. 16 milhões de pessoas – é muita gente para apenas uma cidade. O mesmo autocarro passa a todos os minutos e mesmo assim encontra-se sempre lotado. Estar na rua a um Domingo é o mesmo que estar no Black Friday em Novembro. Tudo fica a horas de distância. 

Eu podia escrever um artigo infinito sobre o quão Istambul é uma dor de cabeça. Mas existem tantas outras coisas que tornam esta cidade gigantesca num lugar mágico e único. É um lugar onde se pode sentir a vibração europeia e a essência muçulmana ao mesmo tempo, sem ser preciso atravessar para o outro continente que fica na outra margem do rio Bosphorus.

Este mês decidi passar 2 semanas em Istambul para visitar todos os meus amigos turcos que conheci na República Checa. Fiquei alojado em Avcilar, em casa de um amigo checo que está a fazer Erasmus na cidade. Tal como qualquer alojamento de estudantes, era apenas um quarto. A certo ponto chegamos a estar 4 no quarto – 2 na cama e 2 no chão.

Ficavamos a 30 minutos da paragem mais próximo de Metrobus, que é uma faixa de rodagem exclusiva para autocarros na auto estrada que atravessa toda a cidade de Istanbul (impressionante!).  Por isso, panhavamos sempre um mini autocarro para ir para a paragem que custava 2.5 lyras (cerca de 40 cêntimos), completamente lotado. Há que notar que o trânsito em Istambul é um caos aos nossos olhos pois ninguém respeita passadeiras, as buzinas ouvem-se a todos os minutos e não existem quaisquer regras na estrada (provavelmente existem mas ninguém as respeita). Apesar disso, nunca vi um único acidente durante estas 2 semanas.

Todos os dias faziamos uma viagem que durava entre 1h30 e 2h para chegar a algo que queriamos visitar. Atravessavamos sempre grande parte da cidade todos os dias e uma grande porção do nosso dia era passada em autocarros, comboios, elétricos, ferries, etc.

Se podia ter ficado alojado no centro? Podia. Se seria a mesma coisa? Não. Em Setembro fiquei a dormir num Hostel em Kadikoy, na parte central asiática. Resultado – não consegui dormir pois tudo está aberto 24 horas e existe vida a toda a hora. No centro ninguém dorme, os transportes não param e as festas.. Não preciso de continuar, certo? Por isso, ficar alojado na casa do meu amigo apenas trouxe vantagens, tais como: ficar num lugar distanciado e calmo, passar mais tempo com os amigos, ver e sentir como é a vida diária de um cidadão de Istambul, ter mais interações com locais e encontrar cantos da cidade que nunca iria encontrar se ficasse alojado no centro. Além disso, poupei algumas centenas de euros, o que é sempre agradável.

Apesar de tudo isto parecer um transtorno, para mim foi apenas uma brisa de ar fresco nas viagens. Em vez de estarmos agarrados ao google maps, decidimos perder-nos nas ruas, explorar aquilo que o google não nos mostra, treinar o nosso sentir de orientação e principalmente fomentar o espírito aventureiro!

Istambul permitiu-me ver as coisas de outra forma em todos estes sentidos. O desconforto fez parte do nosso dia-a-dia e fez com que esta viagem fosse especial, recheada de histórias.

Hoje, irei partilhar o que mais me surpreendeu em Istambul durante estas 2 semanas.


Hospitalidade

Desde sempre que digo que os turcos são pessoas extremamente simpáticas, sempre dispostas a ajudar. Em setembro, apenas precisei de uma interação para alguém me ajudar e partilhar o seu wifi comigo para encontrar o hostel. Desta vez, apenas precisei de uma interação para carregar o título de transporte. Apesar de quase ninguém falar inglês, toda a gente encontra forma de comunicar e ajudar, seja com o que for. É um povo que, aos nossos olhos, faz com que esta cidade se torne mais acolhedora. 

Mesmo os comerciantes, apesar de quererem sempre o melhor para o seu bolso, a grande maioria encontra-se sempre disposta a recomendar o restaurante ao lado caso não tenham aquilo que estamos à procura em vez de nos darem outra sugestão.

Foi o povo que mais demonstrou hospitalidade de todos os países para os quais já viajei. E, para mim, fez uma grande diferença.


Diversidade

Para um Europeu que nunca viajou fora da Europa até então, torna-se evidente a grande diferença de culturas presentes em Istambul. É uma cidade onde a maior parte da população é muçulmana. Contudo, apesar de todas as mesquitas espalhadas pela cidade, existem também várias igrejas cristãs e ortodoxas, bastante próximas das mesquitas por vezes.

Pessoalmente, achei isto muito interessante pois muita gente iria considerar que estas proximidades poderiam originar conflitos religiosos, contudo, pela cidade, a harmonia permanece e toda a gente se trata com respeito relativamente às suas diferentes crenças. Algo que muitos europeus ainda têm de aprender.

Igreja Ortodoxa em Istambul.

Comida

Nem sei por onde começar! Apesar de não gostar nada da Turkish Delight, tenho a dizer que os turcos têm um talento especial no que toca à comida. Os nomes dos pratos são complicados mas eram tão bons que eu até os decorei. 

Tudo o que provei era magnífico apesar de parecer estranho. O kebab (que muitos dizem ser original da Turquia), é bem diferente dos europeus, mas também muito saboroso!

Aqui ficam as minhas sugestões principais:

  • Kumpir
  • Gozleme
  • Baklava
  • Pide
  • Borek
  • Yaprak Sarma
  • Simit
  • Doner
  • Durum
  • Wet Burguer

E nunca se esqueçam de acompanhar com Çai ou Ayran! E, porque não, terminar com um café turco!

Comida tradicional turca

Hagia Sophia & Sultanahmet

Por falar em Mesquitas, não podemos deixar passar as duas mesquitas mais famosas de Istambul – A “Blue Mosque” Sultanahmet e a “Holy Wisdom” Hagia Sophia. 

Ambas encontram-se na mesma praça, frente a frente. Atualmente, ambas estão em fase de restauração devido aos mais recentes terramotos que ocorreram em Istambul, contudo, continua a ser incrível apreciá-las tanto por fora como por dentro. 

A Sultanahmet continua a servir o propósito da religião e os visitantes podem entrar por uma entrada alternativa. Enquanto que a Hagia Sophia é agora um museu onde vários mosaicos originais, ou partes dos mesmos, ainda se encontram conservados. Ainda estão presentes vários elementos dos tempos em que a Hagia Sophia era uma igreja católica.

Hagia Sophia

Bosphorus

O rio Bosphorus é aquele que separa o continente Europeu do continente Asiático. As suas margens proporcionam vistas inacreditáveis, tanto para o lado Europeu como para o lado Asiático. 

Do lado asiático, pode-se apreciar o lado Europeu durante o dia. A grandeza da Hagia Sophia e da Sultanahmet, tanto como o encanto da Galata Tower são evidantes. Enquanto que, durante a noite, do lado Europeu, pode-se apreciar as luzes vibrantes da parte Asiática de Istambul e também a beleza da maior mesquita da Turquia – Çamlıca Masjid.

Vista do lado Asiático para o lado Europeu. Maiden Tower no rio.

Grand Bazaar

Tal como o nome diz, um grande (enorme, gigantesco, infinito) mercado. Pode-se encontrar de tudo o que é cliché – carpetes, chás, especiarias, lâmpadas (até dos génios), turkish delight, etc. 

Para os comerciantes, a época alta é o sustento do resto do ano enquanto que a época baixa é uma corrida ao turista mais próximo. Para o turista, este mercado fá-lo sentir como o grande centro das atenções.

O Grand Bazaar já não é o mercado de referência da população, mas sim o shopping dos turistas e os próprios comerciantes contribuiram para que assim fosse. Ainda assim, é engraçado passar por lá e ser bombardeado com comerciantes a tentarem arrastar-nos até si.

Lâmpadas no Grand Bazaar

Kadikoy

Kadikoy é o meeting point para uma noite inesquecível. Para mim, o inesquecível deste lugar foram as noites mal dormidas em setembro. Apesar disso, não deixa de ser um local especial da cidade onde a autenticidade permanece.

Os mercados locais e mais antigos permanecem nos mesmos lugares desde vários anos e as novas tendências demoram a chegar a esta vila (koy em turco!). Em Kadikoy consegue-se encontrar muito mais facilmente a comida tradicional servida e confecionada da forma original. São as redondezas perfeitas para se sentir verdadeiramente a cultura do país sem ir muito longe. 

Além disso, as caminhadas à beira-rio, com a vista magnífica das mesquitas, especialmente durante os sunsets, é algo inesquecível.

Kadikoy, Istambul

Sunsets

E por falar em sunsets, e para terminar em grande, aqui está o que mais me surpreendeu. As fotografias falam por si.

Lembro-me de ter 9 anos, estar a ler uma revista e ver uma fotografia do pôr do sol nas mesquitas da Turquia. Tem sido o meu sonho desde de criança presenciar tal coisa. 12 anos depois, aqui estava eu a ver o melhor sunset da minha vida no topo de um rooftop em Uskudar, Istambul. 

Existem poucos momentos na minha vida em que sinto este género de felicidade. Ver estes sunsets foram um desses momentos. Nunca percam a hora dourada em Istambul!