Desabafo de uma vítima da pandemia

Desabafo de uma vítima da pandemia

14 de Março, 2021 0 Por Diogo Teixeira

Data: 29 de julho de 2020

Já passaram 4 meses e meio desde o confinamento. Por agora, estamos muito mais próximos da normalidade do que imaginavamos há uns meses atrás. Deviamos estar a celebrar estes pequenos passos de sucesso face ao vírus, mas eu não consigo.

Não consigo celebrar nenhuma vitória face a nada nos últimos 4 meses. Este vírus, apesar de não ter chegado a mim, destruiu-me completamente de outras maneiras.

Se não me conheces, chamo-me Diogo Teixeira. Sou um estudante de 22 anos, muito trabalhador e com um grande futuro à sua frente. Pelo menos é isto que a maioria diz quando fala sobre mim.

Houveram alturas na minha vida em que eu via o meu trabalho dar frutos e que realmente o futuro seria risonho. Estava tudo a correr bem e 2020 parecia que ia ser O Ano. Todos os meus projetos estavam a superar as expectativas, as oportunidades de trabalho não paravam de surgir na minha inbox, a minha relação à distância estava a funcionar melhor do que nunca, tinha imensos planos de viagens que sempre sonhei.. tudo estava a correr bem e eu nunca me senti tão feliz. Mas tudo isto desabou de um mês para o outro.

Quem me conhece sabe que eu sou uma pessoa com um psicológico frágil – é a minha maior fraqueza. O interior nunca correspondeu ao exterior. Pareço ser confiante, mas não sou, nem nunca fui. Transmito sempre um sentimento de felicidade aos que me rodeiam (ou pelo menos tento) mas por dentro tenho sempre algo que me deixa com um pé atrás.

Todos os meus projetos sofreram um grande setback, as oportunidades de trabalho desapareceram, os meus trabalhos atuais foram cancelados, as viagens foram canceladas e a minha relação acabou da pior forma. Tudo me caiu em cima exatamente na mesma altura. O pior é que eu não podia contar com ninguém para me amparar porque este cenário (ou pior) aconteceu a muita gente, principalmente a quem me rodeia.

Senti-me inútil. Apesar de todos os esforços para criar o futuro que sempre quis, para alcançar os sonhos que sempre pareceram impossíveis e para manter uma relação incomum cheia de entraves – nada valeu a pena porque tudo desapareceu num piscar de olhos.

Passei 3 meses em casa. A passar a imagem de que eu estava a investir em mim e a aproveitar as oportunidades que iam surgindo com o cenário que se vivia. Que estava a levar a pandemia da melhor maneira possível. Fui falso.

Fui falso porque, apesar do que eu mostro nas redes sociais, a realidade é muito diferente e só eu sei isso.

Tenho um histórico complicado com depressão. Para me manter em cima, dependo dos outros e de coisas que me mantenham distraído. Eu perdi isso tudo, mais a pessoa que esteve sempre lá para mim e voltei ao mesmo passado de miséria mental. E o mesmo prevalece até hoje.

Agora, com mais liberdade para estar com os meus amigos e de fazer (quase) tudo o que gosto, o mal já está feito. E eu sei que vou demorar a voltar ao sítio. E eu sei que tenho muita sorte de não estar numa miséria mental e também financeira. Mas o vazio dentro de mim, alimentado durante os últimos 4 meses prevalece e nada posso fazer a não ser deitar cá para fora.

E por isso mesmo é que escrevo este texto. Para tu também deitares cá para fora.

Esta pandemia casou muitas mortes. Mas causou um número muito maior de depressões. E muitos de nós já sabemos o perigo que percorremos.

Por isso, deixa de parecer que és mais forte do que todos os outros. Deixa de passar a imagem de que está tudo bem contigo e fala – deita cá para fora. É o melhor antibiótico para o vazio que sentes.

E lembra-te que isto apenas foi um passo atrás para dares dois à frente.

A tua relação pode ter acabado, mas lembra-te que tinha de acontecer, mais cedo ou mais tarde.

Podes ter perdido o emprego, mas lembra-te que muitas novas oportunidades irão surgir com a reabertura dos setores.

Os teus projetos podem ter parado, mas lembra-te que parar é morrer e todos os dias é uma nova oportunidade para singrares.

As tuas viagens podem ter sido canceladas, mas lembra-te que quando tudo estiver bem, vais ser livre outra vez para explorar o mundo.

Isto é um desabafo meu. Porque escrever também me ajuda a deitar cá para fora. E espero que também te ajude a olhar para a vida de outra forma.

Aproveita o dia de hoje ou de amanhã para falares com um familiar, amigo ou até com um desconhecido sobre o que te transtorna. É um começo para dares um passo à frente.

Tal como tu estiveste aqui para mim ao leres este desabafo, eu também estou aqui para ti se precisares. Manda-me uma mensagem.

Se preferires, deixo aqui alguns outros desconhecidos que teriam todo o gosto em ouvir-te e ajudar-te:

Linha Jovem – 800 208 020
SOS Estudante – 969 554 545
Telefone da Amizade – 228 323 535
Linha SOS Palavra Amiga – 232 424 282
Conversa Amiga – 808 237 327
Centro SOS – Voz Amiga – 912 802 669