A minha experiência ERASMUS – Ceske Budejovice

A minha experiência ERASMUS – Ceske Budejovice

13 de Setembro, 2019 3 Por Diogo Teixeira

Faz hoje exatamente um ano que parti na maior aventura da minha vida – ERASMUS. Há um ano até eu próprio previ que seria a maior aventura da minha vida, pois planeei um cenário incrível – muitas viagens, muitos amigos e muitas memórias. Contudo, foi muito melhor do que tudo o previa. Foram os melhores 5 meses da minha vida e digo estas palavras com a maior verdade possível.

Por isso, para celebrar o começo, deixo aqui a minha experiência ERASMUS numa pequena cidade no sul da República Checa – Ceske Budejovice, casa de uma das melhores cervejas do mundo – Budweiser.


Viagem de partida

Dia 14 de setembro de 2018 – Eu e mais 4 amigas iamos juntos para a República Checa. Duas delas iam estudar em Praga e as outras duas em Ceske Budejovice. Contudo, visto que os bilhetes diretos para Praga eram muito caros, decidimos voar para Milão primeiro e depois apanhar um autocarro para Praga.

Todas as nossas famílias estavam reunidas no aeroporto para se despedirem de nós. A coitada da minha mãe era a que tinha mais lágrimas nos olhos.. eu nunca estive fora de casa durante tanto tempo seguido, o máximo que tinha estado fora antes tinha sido 1 semana e pouco. Foi um momento difícil para todos nós mas foi gratificante sentir o quanto todos iam sentir a nossa falta.

O nosso avião partia às 6h30 em rumo a Milão. Alguns foram a dormir no avião e os outros ficaram a tirar fotos a quem estava a dormir (I’m guilty).

Passamos um grande dia em Milão. Infelizmente foi apenas um dia mas não convinha andarmos muito com tantas malas. Um amigo que conhecemos no Porto encontrou-se connosco na praça em frente ao Duomo para nos mostrar a cidade e passar algum tempo connosco.

Ao fim do dia, depois de um dia cheio de calor e de carregar muitas malas, fomos para a paragem de autocarro e partimos para Praga.

Milão – Setembro 2018

Chegada a Praga

Chegamos a Praga de manhã cedo após 12 horas de viagem. Poupamos uma noite num hotel, visitamos Milão e ainda economizamos muito dinheiro ao não apanhar um voo direto (foi aqui que começou a razão deste blog!).

O plano era ficarmos em casa das nossas amigas que iam ficar em Praga. Por isso, fomos para um café perto de lá e ficamos a tomar café e conversar. Contudo, as nossas amigas aperceberam-se que o seu apartamento era falso e tinham sido burladas. Contudo, quando nos apercebemos disto, já era tarde e ficamos sem alojamento para essa noite.

Infelizmente estas coisas acontecem e é preciso ter muito cuidado na internet. Todos nós fomos apanhados de surpresa e aprendemos uma grande lição.

Ficamos a dormir num hall de uma residência e decidimos apanhar o primeiro comboio do dia para Ceske Budejovice.

Praga – Setembro 2018

Viagem para Ceske Budejovice

O primeiro comboio era às 5h00. Como não sabiamos se iamos demorar muito, acordamos às 3h30 para chegar à estação que, pelos nossos cálculos, ficava a pouco menos de 30 minutos a pé. Contudo, as malas iam-nos fazer perder tempo.

Demoramos pouco menos de 1 hora a chegar à estação e pelo caminho encontramos cerca de 40€ em coroas checas no chão. Não estava ninguém por perto portanto ficamos com o dinheiro e pensavamos nós que tinhamos tido alguma sorte…

Quando chegamos à estação, o sistema para nós parecia um labirinto. Não percebiamos nada! Não sabiamos onde eram as plataformas e já tinhamos comprado bilhete online. Quando finalmente encontramos o comboio, faltavam 2 minutos para ele partir. Eu mostrei o meu bilhete ao revisor antes de entrar e este não me deixou entrar. Tentei comunicar com ele mas ele não fala mais nada a não ser checo. Tentei pedir ajuda a alguém por perto se falava inglês mas toda a gente me ignorou.. o comboio partiu sem nós.

Perdemos dinheiro mas tinhamos encontrado algum no chão portanto estavamos mais descansados. Esperamos pelo próximo comboio que seria às 6h00. Mais uma vez, não encontramos a plataforma e perdemos mesmo este comboio.

O próximo era às 7h00. Desta vez percebemos o sistema e conseguimos chegar a tempo. Entramos sem dizer nada e depois compramos o bilhete no revisor, contudo o revisor estava a cobrar-nos bastante! Eu tentei mostrar os nossos cartões de estudante mas como não falavamos checo, simplesmente ignorou e tivemos mesmo de pagar o bilhete na totalidade (mais uma taxa qualquer que não existia online que não sabias o que era).

O comboio demorou muito tempo. Foram as 3 horas mais longas de sempre. Elas adormeceram e eu fiquei acordado para saber quando chegavamos. Quando chegamos, acordei-as à pressa pois já tinha percebido que o comboio parava durante pouco tempo.

Nós já só queriamos dormir, por isso fomos diretos para a paragem de autocarro que nos levava aos dormitórios. Contudo, o condutor do autocarro fartou-se de berrar connosco porque não compramos bilhete na paragem (acho eu.. ele falou em checo).

Quando chegamos e nos preparavamos para fazer o check-in na receção da residência, entramos em pânico. A rececionista também estava a gritar connosco e não sabiamos porquê. Deduzimos que foi por não falarmos checo e ela queria saber a nossa informação. Por isso, dei-lhe o meu cartão de cidadão e calei-me – isto resultou. Após este enorme aparato e uma grande má primeira impressão das pessoas checas, finalmente pude dormir.

Primeira foto em Ceske Budejovice – Setembro 2018

A primeira viagem

Nesse mesmo dia, uma amiga polaca contactou-me a dizer que estava em Vienna a visitar os avós e perguntou se queriamos visitá-la. Ora.. vocês sabem como eu sou – eu nunca iria dizer que não a isto. Contudo, tinhamos de partir já no dia seguinte e estavamos bastante cansados como podem imaginar.

Mas isso não importou porque nós sabiamos que tinhamos de aproveitar o tempo e tinhamos ainda 3 ou 4 dias livres antes do evento de boas-vindas a novos alunos. Por isso, reservamos o autocarro para o dia seguinte e o primeiro hostel que encontramos e lá fomos nós.

Foram 3 horas de viagem mas que passaram muito rápido. Tivemos sempre a conversar sobre o que tinha acontecido nos últimos 3 dias e não nos calavamos sobre o quão bonitos eram os campos da Austria.

Quando chegamos a Vienna, fomos imediatamente ao hostel deixar as mochilas. Mas… quando chegamos ao hostel apercebemo-nos que fizemos a escolha errada – aquilo mais parecia um dormitório de um campo de concentração e os cacifos mal fechavam. Mas.. lá teve de ser. A nossa amiga polaca já conhecia bem a cidade portanto mostrou-nos tudo tal como um local e foi uma experiência muito boa para uma primeira viagem. Passados estes 3 ou 4 dias (não me recordo exatamente), voltamos a Ceske Budejovice para finalmente conhecermos os nossos novos colegas!

Vienna – Setembro 2018

Seznamovák

Quando voltamos já era de noite e estavamos cansados. Contudo, reparamos no grupo de Whatsapp dos ERASMUS da Universidade que todos os ERASMUS que já tinham chegado estavam juntos no bar local, por isso decidimos deixar a dormida em condições para outro dia (só ia conseguir dormir bem passado uma semana).

Quando chegamos ao bar, rapidamente encontramos o grupo de alunos ERASMUS que nos recceberam muito bem. Lá conhecemos aqueles que iam ser alguns dos nossos melhores amigos e até a minha futura namorada.

Eramos poucos ainda. E ao longo da conversa percebemos que todos iamos ao evento de boas vindas chamado Seznamovák. Aparentemente, poucos alunos internacionais quiseram fazer parte deste evento. E foi nesta mesma noite que provei a minha cerveja favorita de sempre – Budweiser.

Mas afinal o que era o Seznamovák? Era um evento anual de 4 dias, organizado pela Associação de Estudantes, onde todos os alunos novos da Universidade (nacionais e internacionais) se juntavam num acampamento com atividades durante o dia e festa todas as noites. Basicamente não dormiamos durante 4 dias e divertiamo-nos o máximo que conseguissemos.

Acordamos bem cedo para nos dirigirmos ao autocarro todos juntos. Contudo, durante a viagem de autocarro aconteceu algo incrível. O Presidente da Associação de Estudantes Internacional pediu-nos para conversarmos com um checo que gostava muito de falar inglês. Hesitei um pouco pois não tinha boas experiências com checos mas não julguei e aceitei logo o desafio. A verdade é que este rapaz tornou-se um dos meus melhores amigos de sempre e, por coincidência ou destino, partilhamos o mesmo bungalow no Seznamovák.

O que se seguiu neste dias foi completamente surreal, no bom sentido. Fizemos visitas a castelos, passeios de barco, jogos de teambuilding, provamos comida típica e vivemos verdadeiramente a cultura checa durante alguns dias. As festas foram das melhores em que alguma vez estive. Exagerei, é verdade, mas valeu completamente a pena. Se me perguntassem se repetia todas as loucuras e ressacas, eu nem pensava duas vezes se tivesse a oportunidade, pois foi simplesmente as melhores noites da minha vida.

Seznamovák – Setembro 2018

Semana de orientação

Após voltarmos do Seznamovák, finalmente pude dormir em condições. Contudo, não tive muito tempo para relaxar pois tivemos a semana de receção aos alunos internacionais logo depois.

Fizemos todo o tipo de coisas. Tivemos uma city tour pela cidade, liderada por alunos da Universidade, visitamos a fábrica da cerveja local (Budweiser) e podemos provar a cerveja logo após ser produzida e antes de ser engarrafada, tivemos uma tour pelo Campus (que era muito grande), tratamos de todas as burocracias (título de transporte, inscrição nas disciplinas, cartão de estudante, etc) e no final da semana tivemos a festa de receção aos alunos ERASMUS que foi a cereja no topo do bolo.

Muita gente levou as suas bandeiras e todos nós pintamos as nossas caras com as cores dos nossos países de origem. Foi das noites mais loucas da minha vida mas aquela que oficialmente marcava o início de tudo o que estava para vir.

Festa de receção aos alunos internacionais – Setembro 2018

Ceske Budejovice

Finalmente começavam as aulas, mas também finalmente tive tempo para explorar a cidade que me ia acolher nestes 5 meses. Tinha apenas 3 dias de aulas por semana com segunda e sexta-feira livres – não podia pedir melhor, certo?

O que mais gostei na cidade foi o seu sistema de bike-sharing. Custava 30 coroas por hora (pouco mais que um euro), sendo que a primeira hora do dia era sempre gratuita. Eu peguei tantas vezes na bicicleta e apenas andei em busca do desconhecido. O que encontrei deixava-me de boca aberta. Campos abertos sem fim, aeroportos abandonados, lagos enormes cheios de biodiversidade e muitas vias para bicicletas em todo o lado.

Além disso, o centro da cidade era muito lindo. Na praça principal, era comum haverem muitos mercados e eventos. Por exemplo, uma vez celebrou-se os 100 anos da Checoslováquia que foi um espetáculo audiovisual que superou todas as minhas expectativas.

No centro da cidade encontrava-se de tudo. Mercados locais, restaurantes vegans, cafés rústicos, pubs históricos, de tudo mesmo. Era impossível ficar aborrecido nesta cidade que muitas da minha Universidade no Porto rejeitam pois não ser uma cidade grande como Praga mas digo-vos que não podia ter feito escolha melhor!

Parque Stromovka, Ceske Budejovice – Outubro 2018

Viagens

Toda a gente que me conhece sabe que eu garanti a toda a gente, antes de partir, que ia viajar muito, muito, muito mesmo. E cumpri. Todos os fins-de-semana eu não estava em Ceske mas sim em qualquer outro cantinho da República Checa ou da Europa.

Na República Checa visitei Brno, Praga, Kutna Hora, Cesky Raj, Cesky Krumlov, Marianské Lazné e Karlovy Vary. Provavelmente mais alguns locais mas estes foram os que me ficaram mais na memória. E tenho a dizer que a República Checa foi mesmo o local perfeito para eu escolher e não podia ter ficado mais contente da minha escolha. O facto de ter escolhido este país permitiu-me conhecer pessoas incríveis e de visitar um dos países mais bonitos da Europa de Norte a Sul.

Além disso ainda visitei mais outros países tal como Polónia (Gdansk e Cracóvia), Hungria (Budapeste), Alemanha (Munique), Austria (Vienna e Salzburg), Eslovénia (Bled) e Holanda (Amesterdão e Roterdão).

Eu podia contar a história de cada uma destas viagens mas estou a planear fazê-lo em diferentes posts pois iria ficar muito extenso. Fiquem atentos!

Television Tower (Olympia Park), Munich – Novembro 2018

Mercados de Natal

Uma das grandes surpresas para mim foram os mercados de Natal. Graças a todas as viagens que fiz, cheguei a tempo de ver vários mercados de Natal pois a maioria começavam em Novembro. Estes mercados transmitem uma magia de Natal que não se sente em Portugal. É algo único da Europa Central e de Leste que nos transmite uma outra energia da época natalicía.

Consegui ver os mercados de Vienna, Salzburg, Budapeste, Praga e Ceske Budejovice. O de Ceske Budejovice era o mais pequeno mas para mim ficou no coração pois foi onde aprendi a patinar no gelo! O de Praga também foi bastante especial pois assisti à cerimónia onde acenderam a árvore de Natal no dia 1 de Dezembro. Contudo, o mais bonito para mim foi o de Salzburg. A decoração as pequenas barracas e o cheirinho a vinho quente dentro de uma cidade que, tanto de dia como de noite é linda, fez com que Salzburg, para mim, fosse melhor.

Graças a ter presenciado isto, espero todos os anos poder viajar para uma cidade diferente para estar noutro mercado de natal diferente e fazer disto tradição.

Mercado de Natal em Praga – Dezembro 2018

Natal fora de casa

Isto foi algo que me marcou pois nunca tinha passado o Natal fora de Portugal, muito menos longe da minha família. As passagens eram caríssimas e continuavam a não existir voos diretos para o Porto, por isso decidi ficar em Ceske Budejovice.

Na altura que tomei esta decisão, sabia que ia ser difícil e sabia que provavelmente me ia arrepender. Contudo, acho que ainda hoje sinto tanto arrependimento como gratidão. Por um lado, sinto arrependimento por ter passado longe da minha família e por outro gratidão pois vivi uma época natalícia diferente e muito acolhedora juntamente com todos os alunos internacionais que ficaram, maioria turcos pois não celebram o Natal.

Contudo, apesar de não celebrarem o Natal, aceitaram juntarem-se aos que ficaram e celebraram connosco. Foi bom ver o quão recetivos foram a esta tradição.

Tivemos uma ceia de natal diferente, mas com o mesmo espírito de sempre. A verdade é que nessa noite senti muito arrependimento pois só naquele momento é que senti na pele a decisão que tomei. Mas a minha família apoiou-me bastante e consegui superar isto. Pode não ser nada muito significativo, tal como eu achei, mas quando se vê os dormitórios e o campus completamente vazios pela primeira vez, apercebemo-nos da realidade.

Véspera de Natal – Dezembro 2018

Despedida

Em janeiro, chegou a hora da despedida. E foi neste momento que não me podia ter sentido mais grato por tudo o que aconteceu.

Os meus amigos mais chegados decidiram fazer uma festa de despedida no dia anterior à minha partida. Foi emocionante e das noites mais divertidas de sempre – sem dúvida uma despedida de forma adequada.

O dia seguinte foi difícil. Entreguei a minha chave da residência e toda a gente me via com uma mala bastante grande comparado com a que levava normalmente para as viagens. As perguntas surgiram e eu ia dizendo pouco a pouco que estava na minha hora de ir embora de vez.

Era a última vez que tomava o pequeno-almoço na biblioteca, última vez que caminhava no campus, última vez que almoçava na cantina e a última vez que ia ver muitos dos meus colegas. Também iria ser a última vez que ia ver a minha namorada durante alguns meses pois ela ia ficar mais 6 meses.

Na altura não foi difícil, mas foi estranho. Naquele momento não me apercebi ao certo que tudo estava prestes acabar, eu simplesmente estava a aceitar que não ia voltar. Eu ainda ia fazer uma paragem por Amesterdão e Roterdão antes de voltar para o Porto e parecia que era apenas mais uma viagem de fim de semana. Só que na realidade, quando realmente cheguei ao Aeroporto do Porto e percebi que não ia voltar é que finalmente caí em mim.

Ceske Budejovice – Outubro 2018

Vida normal

Vou ser sincero, foi difícil adaptar-me a Portugal e ao Porto novamente. Eu tinha-me esquecido completamente do comportamento português e do quanto as pessoas não respeitam o espaço pessoal e falam alto. Isto não acontece na Europa Central e por isso foi um choque para mim apesar de sempre ter vivido em Portugal.

Tudo me irritava e me parecia aborrecido. As minhas viagens para a faculdade agora demoravam 1 hora em vez de 5 minutos. Já não tinha a liberdade de morar sozinho, ter os meus próprios horários, já não viajava para um país diferente todos os fins de semana.Tudo isso acabou. Digamos, por outras palavras, que acabou a vida boa. Além disso, agora também tinha uma relação à distância o que não facilitou nada o meu regresso.

Existe algo chamado “post-erasmus depression”. Acho que não é necessário explicar o que isto é, mas é bem real. É bom que estejam conscientes que isto é uma possibilidade pois é completamente inevitável.

Além de todas estas complicações, fico contente com o que vivi neste período e por me ter adaptado novamente ao meu país de origem. De vez em quando visito os meus amigos nos seus países e mantenho contacto com todos eles. Concluindo, as mobilidades têm os seus pontos positivos e negativos e penso que deu para identificá-los neste grande texto. Mas, além de tudo isso, é uma oportunidade que não devem deixar escapar e para mim, Ceske Budejovice ficou para sempre no meu coração.