Fes – A Capital Cultural de Marrocos

Fes – A Capital Cultural de Marrocos

Março 25, 2020 0 Por Diogo Teixeira

2020 prometia ser aquele ano em que eu ia mais além de fronteiras europeias. Primeiro Istanbul, depois Marrocos.. Apesar do que se está agora a passar no mundo, tive a sorte de ir a tempo dessa viagem incrível a Fes, Chefchaouen e Rabat

Hoje venho aqui falar do meu tempo em Fes, considerada a Capital Cultural de Marrocos. Foi a cidade onde passei mais tempo durante a semana que estive em Marrocos e, sem dúvida, uma das aventuras mais interessantes que alguma vez vivi. 

Muita gente me perguntou, porquê Fes? Porque não Marrakesh? É simples. Eu tento ao máximo evitar os destinos mais populares de cada país devido à grande aglomeração de turistas e, consequentemente, da existência de preços especiais para públicos diferentes, mudanças de comportamento e a desvalorização da identidade cultural. Por isso, tento sempre distanciar-me ao máximo do destino principal. Por essa mesma razão é que já visitei França de cima abaixo mas nunca fui a Paris. Pela mesmo razão é que já visitei Espanha de uma ponta à outra mas nunca fui a Barcelona. Só para dar alguns exemplos.

Apesar disso, quero um dia passar por Marrakesh devido a todas as recomendações que ouvi dos locais durante esta semana. Mas hoje, irei falar sobre Fes, a minha experiência e o que a torna especial.


Chegada a Fes

Parti de Toulouse para Fez às 6h da manhã. Lembro-me que não dormi porque estava mesmo muito entusiasmado com a viagem que vinha aí. Saber que não tenho dados móveis sempre que quero acorda um certo bichinho dentro de mim, nem consigo explicar.

O aeroporto era muito pequeno. Apenas vi 3 aviões, incluindo o nosso. Existiam cerca de 10 voos por dia pelo que verifiquei. Mal entrei no aeroporto, deram-me logo um questionário sobre o novo Coronavírus – COVID-19 – a perguntar se tinha os sintomas, onde ia ficar alojado, todos os meus dados, etc. Isto demorou cerca de 30 minutos devido às filas que se formaram e à falta de canetas (tivemos todos de utilizar a mesma caneta, viva a transmissão do vírus).

Após isto, tínhamos de entregar o papel no controlo de passaportes. Por mera coincidência, eu tossi e o revisor olhou para mim com cara de poucos amigos mas lá passei.

O que se passou a seguir era previsível mas não deixou de ser surpreendente. Fomos provavelmente dos últimos a sair do aeroporto vindos de Toulouse. Mal saímos do aeroporto, fomos buzinados e inundados por uma quantidade ridícula de taxistas a perguntar se queríamos ir para o centro da cidade. Bem.. não há problema nenhum em saber o preço e comparar com o do autocarro. Todos eles queriam 50DH (cerca de 5€) para nos levar para o mesmo destino do autocarro, enquanto que o autocarro custava 4DH (cerca de 0,40€). 

Eu simplesmente recusei todos porque o preço era sempre o mesmo e não compensava porque eu sabia que o autocarro passava de 30 em 30 minutos. Mas, mesmo assim, muitos deles diziam-me que o autocarro não custava 4DH mas sim 30DH. Bem.. era mentira porque paguei mesmo 4DH.

A viagem de autocarro foi um caos. O autocarro tinha buracos no chão e estava a cair aos bocados.. Nós entramos pela porta da frente e o motorista desbloqueava a cancela após o pagamento. Contudo, também existia uma cancela na porta de trás para sair, cuja apenas os passageiros conseguiam desbloquear de dentro para fora. Ora, o que aconteceu? Algumas pessoas saltaram a cancela do lado de fora para entrar sem pagar e com o motorista a ver tudo pois a cancela é muito alta e ninguém conseguia entrar sem fazer uma grande cena e parecer um macaco. Foi engraçado.

Passados 45 minutos, chegamos à estação de comboios de Fez. Faltava-nos chegar à Medina onde estava o nosso alojamento mas não encontramos nenhum transporte público. Encontramos um taxista que nos fez 20DH por 2 pessoas (cerca de 2€). Achei justo. Mas durante a viagem (que pareceu durar uma eternidade) ele tentou ao máximo vender-nos uma tour privada extremamente cara a Chefchaouen e também mentiu sobre os preços dos autocarros públicos para lá, enfim. Muita pesquisa e estar informado deu jeito.

Lá chegamos finalmente à Medina de Fes quase à hora de almoço.

Entrada da Medina de Fes – Blue Gate

Medina de Fes (Old Down)

O que dizer sobre este lugar? Mal entrei, senti que estava no Grand Bazar de Istambul outra vez só que agora era muito maior e muito mais intenso.

Para quem não conhece e não percebeu a comparação, no Grand Bazar de Istambul e na Medina de Fez, todos os comerciantes estão numa caça ao turista constante fazendo coisas absolutamente ridículas para enganar e vender.

Se nós olhamos para um menu num café, já está o funcionário a agarrar-nos para irmos para dentro (literalmente). Se dizemos uma única palavra de resposta como “não, obrigado”, eles seguem-nos até começarmos a ignorar. Não existe sossego, principalmente para mim que sou extremamente branco e ruivo, logo não passo despercebido. Basta atravessarmos a Blue Gate (porta da Medina) que já estamos a ser perseguidos.

Apesar da Medina ter mercados lindos e ser muito interessante de visitar, é impossível desfrutar verdadeiramente do que nos rodeia. O pior disto tudo é mesmo quando eles pensam que estamos perdidos e nos tentam levar para as principais atrações mais próximas, supostamente de graça e depois pedem-nos dinheiro pela ajuda.

Isto aconteceu-nos 2 vezes para aprendermos a não confiar. Primeiro, foi quando estávamos à procura do nosso Riad. Ficamos meios perdidos porque o Google Maps (transferi a área antes de partir para Marrocos) não tinha nem metade das ruas e cruzamentos da Medina porque aquilo é um autêntico labirinto de mini ruas. Por isso, confiamos num rapaz jovem que se mostrou disponível para nos mostrar o caminho. Eu

perguntei-lhe antes se ele ia pedir dinheiro e ele garantiu-me que não.

Ele foi muito simpático durante os cerca de 10 minutos que demoramos. Mal chegamos à porta, ele não perdeu tempo a pedir dinheiro para tomar um café apenas. E nós decidimos dar-lhe os restos que tínhamos do táxi que foi cerca de 3DH (0,30€.. Na minha faculdade em Portugal já dá para um café). Ele ficou extremamente chateado e exigiu 20DH! Simplesmente entramos no Riad e ignoramos.


Alojamento – Riad Dar Rumi

Chegamos finalmente ao nosso alojamento e ficamos de boca aberta! A residência era linda e o staff foi mesmo muito atencioso. Um estudante universitário chamado Omer ficou responsável por nós e tratou-nos mesmo muito bem. Alertou-nos de algumas vigarices, deu-nos um mapa com pontos a visitar em Fez e ainda nos deram um chá.

O nosso quarto tinha o tamanho perfeito para nós e era o que ficava mais alto, ou seja, tínhamos acesso rápido ao rooftop que nos permitia ter uma vista incrível da parte este da Medina e para as ruínas de Merinide

E o melhor é que tínhamos incluído sempre um pequeno-almoço enorme e delicioso todas as manhãs! Azeitonas, queijo, pão (imenso mesmo), ovos e outros fritos que não faço a mínima ideia do que sejam.

Foram mesmo muito prestáveis, mais além do que precisavam de ser. Eu quando reservei o quarto, coloquei uma noite a menos e pedi-lhes para ficar uma noite extra. Eles arranjaram-me outro quarto pois o nosso já ia estar ocupada e adivinhem.. Por mais 5€ ficamos quase num quarto que parecia um palácio! E o melhor de tudo é que era dia de S. Valentim.. Parecia que tinha sido planeado!

Encontrei este alojamento no AirBNB na altura. Caso queiram lá ficar, utilizem este link para terem um desconto de até 41€ na vossa primeira reserva!


Chouara Tannery

Este é um locais de produção de couro mais conhecido em Marrocos – pelas suas cores, o cheiro característico e a realidade que os trabalhadores vivem. Dentro deste complexo também existem várias lojas a vender peças em couro que são produzidas exatamente ali a preços bastante acessíveis para Europeus (ainda melhores se negociarem).

Nós decidimos ir a pé desde a Medina e demoramos cerca de 30 minutos. Fomos por um caminho escondido com um rio sujo a percorrer uma avenida entre os edifícios de cor dourada. Quando chegamos ao local, começamos a encontrar vários trabalhadores da Tannery, até que ouvimos todos a gritar para nós algo em inglês do género: “it’s here, it’s here!”. Achamos estranho e continuamos o caminho até que um homem, muito simpático, veio ter connosco a dizer que podia-nos mostrar o caminho da Tannery. Ora… já sabemos o que vai sair daqui. Perguntei-lhe logo se ele ia cobrar-nos dinheiro por isso e ele garantiu-me que não.

Decidimos confiar nele e segui-lo. O homem passou cerca de 40 minutos connosco a explicar a história daquele lugar, o procedimento para se fazer o couro (aprendemos que cocó de pombo está envolvido no processo), os melhores viewpoints para tirar fotos e até nos deu acesso ao interior que é interdito ao público. Tiramos fotos do melhor local de todos que era apenas para trabalhadores e ainda por cima, ele sabia tirar fotos.

Chouara Tannery

No fim, levou-nos às lojas a ver se queriamos comprar alguma coisa. Ainda tentamos negociar algo que coubesse no nosso budget, mas eles não cederam.

Quando estavamos a ir embora, ele veio a correr atrás de nós a pedir dinheiro pela visita. Mostrei-me um pouco revoltado porque ele garantiu que não nos ia cobrar nada mas como a visita foi tão boa, decidimos dar-lhe 40DH (cerca de 4€). Ele ficou contente e disse que tínhamos sido até generosos.

Apesar de termos caído nisto, nem me senti muito culpado. A Tannery é verdadeiramente linda e vale a pena visitar, mesmo que não se tenha esta visita privilegiada. Contudo, sei que várias pessoas pagavam mais que 40DH por este visita que nós tivemos, que na verdade ficou a 20DH cada um.


Jardim Jnan Sbile

Quando estávamos a ir do aeroporto para a Medina, passamos por este jardim e demos um suspiro de surpresa ao mesmo tempo. Só a entrada era linda e dava vontade de sair do táxi e ficar a meio do caminho para visitar aquilo!

No dia seguinte, decidimos dar uma caminhada a pé e passar por lá. Ficamos lá menos de uma hora mas ficamos muito contentes com o tempo que passamos neste jardim. Não é o típico jardim botânico que se encontra cheio de palavras riscadas nos troncos das árvores como acontece na Europa. Ali, tudo estava a ser controlado por guardas (tal como tudo) e estava tudo muito bem cuidado.

Ao fundo do jardim, havia um lago enorme com uma pequena ilha no meio, cheia de aves de várias espécies. Nunca tinha estado num jardim tão diverso e com um ambiente tão natural. Valeu a pena a visita, apesar de ter sido curta.

Jardim Jnan Sile – Fes

Palácio Real de Fes

Outra das nossas paragens na caminhada foi no Palácio Real de Fes. Infelizmente, não se pode entrar no palácio e ele encontra-se a ser vigiado por vários militares à sua volta 24 horas por dia. Apenas podemos apreciar as suas grandes portas e estrutura do lado de fora

E além da praça em frente ao palácio ser enorme, apenas temos uma única entrada. Nós tentamos entrar pelo espaço aberto mais próximo mas veio logo o guarda dizer-nos, muito educadamente, para darmos a volta o que demorou mais uns 5 minutos.

Apenas ficamos ali 20 minutos a olhar e tirar fotos porque na realidade não se trata de mais do que uma grande porta linda que dá entrada a um palácio que não podemos visitar.

Mesmo assim, decidimos parar pois ficava a caminho do que íamos visitar depois.

Entrada do Palácio Real de Fes

Forj Nord

Uma das nossas caminhadas tinha como destino o Forj Nord – um grande forte militar agora transformado em museu militar.

Custou 20DH (cerca de 2€) e ficamos a visitar durante cerca de 2 horas, pouco mais. Foi um dos museus que mais me atraiu, de sempre. O museu em si possuía muita informação de caráter militar, não só de marrocos, mas de vários países do mundo.

Alianças, guerras, técnicas diferentes de produção de armas, as diferentes caraterísticas do estilo de combate de cada país, etc. Tudo num só local. De realçar que todo o museu se encontrava muito bem organizado e atraía o visitante a ler tudo e mais alguma coisa.

Novamente, neste museu também tinha acesso a um rooftop. No topo do museu, encontrava-se a secção dos canhões e com outra vista panorâmica magnífica de um lado mais exterior da cidade de Fez

Um preço muito acessível, com poucos visitantes nesta altura do ano e que vale a pena a visita apesar de estar distante do centro e da Medina.

Topo do Borj Nord

Tombeaux des Mérindes

As “Catacombas” ou “ruínas” de Merinides foram talvez a minha parte favorita de Fes. Ficava a cerca de 25 minutos a pé do nosso Riad apesar das conseguirmos ver do rooftop. Demoramos este tempo porque é difícil sair da Medina e perceber o caminho entre aqueles curvas todas e porque tínhamos de atravessar um cemitério inteiro a subir. Pode não parecer muito mas os cemitérios em Marrocos são 10 vezes maiores do que os cemitérios portugueses.

Lembro-me de achar algo bizarro. Enquanto atravessava o cemitério, reparei que muita gente estava sentada nas campas como se tratasse de um simples banco ou escada. Apenas as pessoas mais idosas faziam isto. Reparei também que todos os turistas que viam este comportamento também ficavam surpreendidos.

Ao longo do caminho, também fomos interceptados por um grupo de crianças, ou recém adolescentes, que nos queriam ensinar o caminho (apesar de ser a subir, era reto e não era necessário), novamente em troca de dinheiro. Infelizmente (ou felizmente) eles falam todas as línguas que eu sei falar.. Se eu falava inglês, português, espanhol, francês, ele respondiam sempre e sabiam falar comigo.. Que raiva! Assim nunca me iam deixar em paz.

Mas passado uns 10 minutos a seguirem-nos, lá foram à sua vida pois nós já estávamos a chegar.

Topo das ruínas de Mérinides – Fes

Quando chegamos, ficamos estupefactos com a vista lá em cima. Quem me conhece sabe que eu gosto de estar no topo do mundo. Procuro sempre o ponto mais alto sempre que viajo para ter aquela vista panorâmica da cidade, por isso isto para mim foi incrível.

Chegamos um pouco cedo para o sunset, por isso ficamos na conversa, sentados na relva (quase areia apenas) e esperamos umas 2 horas enquanto observamos os polícias a cavalo a vigiar o local.

Quando o sol se começou a pôr, foi lindo. Apesar de já ter visto muitos pores do sol na minha vida, com cenários muito diferentes, este está lá em cima no top, apenas atrás de Istambul.


Restaurantes panorâmicos

Nós tínhamos muito o hábito de comer fora. Isto porque os preços eram ridículos (no bom sentido) e porque os restaurantes tinham quase sempre uma vista panorâmica no topo do edifício. 

Tal como referi anteriormente, ADORO altura e vistas panorâmicas. Para mim, comida boa e uma vista incrível é a receita perfeita para eu me sentir nas nuvens. Lembro-me de um restaurante em específico onde pagamos cerca de 8€ por um couscous que dava para duas pessoas com muita coisa incluída (chá, bebida, pão, entradas e sobremesa). Almoçamos no rooftop e, no fim, por cima do rooftop decidimos subir uma escada manhosa para ficarmos ainda mais em cima, enquanto tomávamos o chá. Foi perfeito! Uma das minhas melhores memórias.

Infelizmente não apontei o nome do restaurante mas fomos a vários e todos eles são deste género. Não percam a oportunidade

Restaurante panorâmico em Fes

Aqui ficam os melhores momentos da minha viagem a Fes no início de Fevereiro de 2020! Não percam oportunidade de visitar esta cidade recheada de cultura caso tenham a oportunidade. Relembro que enquanto fiz esta viagem, também visitei Chefchaouen (1 dia, desde Fes) e Rabat (2 dias). Por isso, isto apenas uma parte! Mantenham-se atentos para saberem como foi o resto!

Ofertas de viagens & dicas para poupares!

Inscreve-te e recebe várias ofertas de viagens, dicas para poupares em viagem, descontos e novidades todas as semanas.

Concordo em partilhar a minha informação MailChimp ( Mais informações )

A tua informação é confidencial e nunca será partilhada.